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Jean Charles: eu boicoto

Submitted by fabs on Qua, 01/07/2009 - 13:46.

copiado de Amálgama

por Marjorie Rodrigues * – Decidi boicotar o filme Jean Charles, dirigido por Henrique Goldman e que acaba de estrear, por causa da “Carta Aberta para Luísa”, publicada na coluna do diretor na revista Trip, em setembro do ano passado (leia aqui).

Para quem não se lembra, a chamada da própria revista faz o resumo da ópera: “Nosso colunista pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos”.

Para começo de conversa, não existe “sexo contra a vontade”. Existe um nome para a atividade sexual exercida contra a vontade de um dos envolvidos: estupro. Luísa (exista ela ou não) não fez sexo naquela tarde. Ela foi estuprada.

Estupro não necessariamente envolve porrada. Estupro não necessariamente envolve uma faca no pescoço. Estupros também são praticados mediante pressão psicológica. E foi isso que aconteceu com Luísa — que, além de uma opressão de gênero, sofreu uma opressão de classe. Se não fosse pobre, se não precisasse do emprego, Luísa não se veria forçada a deitar-se com o filho adolescente do patrão.

Tal opressão tem cheiro de escravidão. Não podemos esquecer que, se hoje somos um país que acha bonito se dizer miscigenado, isso foi graças ao estupro de milhares e milhares de escravas negras. As moças “de família” tinham de se casar virgens, mas os rapazes precisavam de uma iniciação sexual para provar sua macheza. Luísa é, portanto, uma velha personagem de nossa história.

Escrever um texto como o de Goldman é um insulto a todas as Luísas. As de ontem e as de hoje. É extremamente ofensivo achar que a questão está resolvida ao publicar essas porcas desculpas numa revista que a Luísa, se existir, sequer tem dinheiro para comprar.

Chamo as desculpas de porcas porque, embora o pretexto do texto seja pedir desculpas, o estuprador vai, aos poucos, arranjando atenuantes, pedindo ao leitor para que lhe dê uma colher de chá. A culpa é dos seios fartos da empregada, a culpa é do Adalberto, a culpa é até do Brasil por seu histórico de escravidão, mas não dele. Pois é: até o lugar de vítima o estuprador quer tirar da Luísa. O efeito do texto acaba sendo conclamar os leitores da Trip a se eximir de “erros” semelhantes, caso os tenham cometido.

(Repare também que o cara só se diz arrependido depois de reconhecer que “no fim, não rolou legal”. Ah, porque se tivesse sido bom para ele, então tudo bem?)

Diante da enxurrada de críticas, Goldman e a Trip disseram que seu único erro foi não ter avisado que se tratava de um texto ficcional – como se tanto o leitor quanto o editor da coluna fossem burros. Ora, a chamada é clara. É “nosso colunista pede desculpas à empregada”, não “nosso colunista traz um conto sobre um rapaz que pede desculpas à empregada”.

Além disso, há a assinatura: “Henrique Goldman se tornou mais jeitosinho com as mulheres” (esta frase não está na versão online, mas estava no impresso). Ora, se não é o próprio Henrique o autor da carta, que importaria saber quão jeitosinho ele é? Qualquer leitor com habilidades mínimas em interpretação de texto percebe que esta frase tem o objetivo de limpar a sua barra. De dizer: “Calma, gente, ele melhorou. Ufa! Não precisam se preocupar”.

Mas eu me preocupo, sim. Eu me preocupo com as tantas Luísas por aí. Luísas que não têm voz. Que não têm espaço numa coluna de revista, no noticiário, na mídia. Estupro, caro Goldman, não é algo de que se aprende a rir depois. Porque ele não é engraçado nunca. Não importa quanto tempo passe.

Ficcional ou não, o texto é irresponsável. O mínimo que Goldman e a Trip deveriam ter feito era admitir isso e pedir, desta vez sim, desculpas públicas às Luísas. Mas ficou tudo por isso mesmo. Assim como o estuprador achou que podia se eximir com um texto mequetrefe, Goldman e Trip acham que se eximiram com uma desculpa esfarrapada.

Devo dizer, no entanto, que não me surpreendo que a Trip tenha aprovado a coluna nem que tenha fugido à responsabilidade depois. Afinal, essa é a revista que anualmente reduz as funcionárias aos seus corpos. Os funcionários homens são avaliados pelo desempenho. Já as funcionárias, apenas por serem mulheres, têm de passar por outro teste: é preciso ser gostosa o suficiente para inspirar punhetas nos rapazes. Nas demais páginas, entretanto, há todo um discurso de pseudoesquerda. Porque é mesmo mais fácil botar a culpa no Brasil, essa entidade amorfa, do que reconhecer o seu papel em perpetuar uma cultura que trata a mulher como objeto sexual acima de tudo. Mas, ó: eu não caio nessa balela da “beleza de verdade, sem photoshop”, revista Trip. Eu não caio na balela de que isso tem o objetivo de valorizar a mulher comum. Não caio no discursinho metido a descolado, mas que no fundo se revela extremamente conservador. Não caio na discriminação de gênero disfarçada de polêmica.

São discursos como o de Goldman que reforçam o que as feministas chamam de “cultura do estupro”. Primeiro, a linha entre consentimento e não-consentimento é atenuada (sabe como é, mulher quando diz que não na verdade quer dizer que sim…). Sendo assim, é costume desconfiar primeiro da mulher que se diz estuprada do que do homem acusado. Para que seu relato não caia em descrédito, ela precisa atender a uma série de variáveis. Não pode estar vestida assim ou assado, não pode estar alcoolizada, não pode ser sexualmente ativa, não pode estar andando sozinha em determinada hora, não pode ter uma relação afetiva com o agressor. Senão, estava pedindo.

Como mulher, sou diretamente prejudicada por essa cultura. Logo, sinto que tenho de combatê-la. O boicote a Jean Charles faz parte desse combate. Como Goldman fugiu à responsabilidade de reconhecer o tamanho da merda que era seu texto, eu decidi fugir de seu filme. Boicotarei Jean Charles e tudo mais quanto ele dirigir. Para mostrar que eu não esqueço. Afinal, as Luísas nunca esquecem.

P.S. – Sei que filmes são obras coletivas e que o meu boicote fará muito pouco, quase nada, para combater a cultura do estupro. Mas, pessoalmente, não quero dar dinheiro para quem eu acho que não merece. É engraçada a reação que algumas pessoas têm ao boicote, aliás. Há quem torça o nariz quando alguém diz que boicota produtos, marca ou artistas por conta de algo em que acredita. Acho que é porque estamos tão acostumados a viver num mundo onde as pessoas se definem pelo que consomem (já que a publicidade associa produtos a conceitos e valores) que, quando alguém se define pelo que não consome, a reação é mesmo o choque.

* Marjorie Rodrigues é a nova colaboradora do Amálgama. Escreve de São Paulo. Mais sobre ela aqui

Posted in Submitted by fabs on Qua, 01/07/2009 - 13:46.