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Estupro: o cinismo da revista TRIP

Submitted by tai on Qui, 09/10/2008 - 19:33.

A revista TRIP publicou no seu sítio eletrônico um texto do colunista Henrique Goldman que afirma ter estuprado a "empregada da família" quando tinha 14 anos. Tratado com cinismo e abordado de forma naturalizada, o caso de estupro é ainda ridicularizado pelo estuprador, que diz ter se tornado "mais jeitosinho com as mulheres ao longo dos anos"...

Henrique Goldman, escreve hoje, depois de prescrito o crime, e nem mesmo deve entender o ato como tal.

Carta aberta para Luisa
Nosso colunista pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos
(TRIP, abaixo o texto na íntegra)

Oi Luisa,

Será que você lembra de mim? Sou filho da dona Fany, do Bom Retiro. Provavelmente você lembra, mas talvez por desgosto tenha removido aquela absurda tarde da memória. Só me permito lembrar – lavando estes panos sujos assim tão publicamente – porque o mundo é cheio de Luisas. Porque já se passaram 32 anos e porque, lamentavelmente, o que aconteceu entre nós não é tão incomum.

Quantos anos você tinha? Vinte, trinta? De onde você era? Quem você era? Só sei que você era empregada de casa, que teus seios eram fartos e que eu tinha 14 anos. Você era tímida e já trabalhava em casa há algumas semanas quando a Sheilinha, uma colega de classe, me disse que você já tinha trabalhado na casa da família dela e que você “dava para um motorista de táxi”.

A idéia de que você “dava” não saiu da minha cabeça, e você começou a estrelar obsessivamente todas as minhas punhetas. De tarde eu fi cava rondando pela área de serviço enquanto você lavava a roupa. Era um tesão incontrolável, afl ito, desesperado e covarde.

Eu nunca gostei daquele bosta do Adalberto e não me perdôo por tê-lo envolvido nessa história. Até hoje, nas poucas reuniões da turma do colégio Renascença, eu o evito. Mas ele era maior e mais corajoso, e eu recorri a ele. Sinto muito remorso, Luisa, pelo que fizemos.

Meus pais e irmãs tinham saído e você estava varrendo a sala quando eu e o Adalberto demos o bote. Não lembro qual foi o nosso papo, mas imagino que tenha sido a coisa mais ridícula do mundo. Pedimos, insistimos sem parar para que você “desse” para nós.

CASA-GRANDE E SENZALA
Lembro de poucos detalhes. Você não queria, mas por força da nossa insistência acabou cedendo. Sinto ódio do Brasil quando penso que você provavelmente tivesse medo de perder o emprego.

O Adalberto, é claro, foi o primeiro. Subi numa escada e fi quei olhando através da janelinha do cubículo que era o teu quarto. Depois fui eu. Não foi bom, Luisa. Na hora do vamos ver fi quei envergonhado e não rolou legal. Até hoje me envergonho. Muito.

Espero que você esteja bem. Espero que para você a memória daquela tarde não seja tão ruim e que você hoje possa rir do que aconteceu.

Desculpas, Luisa.

Henrique.

*HENRIQUE GOLDMAN, 46, cineasta paulistano radicado em Londres, tornou-se mais jeitosinho com as mulheres ao longo dos anos. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br

Posted in Submitted by tai on Qui, 09/10/2008 - 19:33.

magaly | Sex, 10/10/2008 - 18:51

É... o autor do texto é cineasta... está fazendo um filme sobre o Jean Charles que foi assassinado em Londres pela polícia num trágico equívoco misturado de racismo.

Pois bem, não apenas em terras londrinas... Luísas, Sirleys (a empregada doméstica brutalmente espancada na Barra da Tijuca por 4 rapazes de classe média alta) e Genis (sim, ela mesma, a da música de Chico Buarque, a que salva a cidade do Zepelin e, ato contínuo, lhe é abolido o direito a uma vida humana digna) são atendidas todos os dias nas delegacias de mulheres, nos serviços de saúde ou são mortas.

O autor, com pretensos ares de cineasta importante que faz comentários ácidos e impertinentes, imitador de Arnaldo Jabor... como toda imitação, este é uma farsa lamentável.

Resta nos perguntarmos: a que serve este tipo de "auto-confissão" de um crime? Em que medida esta coluna se inscreve na política editorial da Revista Trip? E porque a maioria dos comentários sobre esta "carta" é tão profundamente raivosa, machista e violenta?

O que realmente me assusta neste fenômeno é a persistência forte da misoginia, do desprezo e da naturalidade como é relatada a violência sexual, ato criminoso contra uma mulher pobre e em situação de vulnerabilidade. A um loooongo caminho a ser pecorrido por esta nossa sociedade no seu caminho, digamos assim, civilizatório.

Magaly

fabs | Sex, 10/10/2008 - 09:16

que absurdo essa carta com este comentário final sobre ele estar "mais jeitosinho"!

muito fácil pedir desculpas depois que um crime prescreve, ainda mais desse jeito, como se o delito fosse apenas uma pequena infração que o simples fato de pedir desculpas em público amenizasse. Não ameniza não!

mas o pior é até agora não perceber ninguém questionando a educação que este ser recebeu de seus pais, os responsáveis perante a lei pelo ato, pois ele era menor quando o cometeu.

acho que principalmente este debate é que deve acontecer, pois o crime foi cometido dentro da casa da família.

foram ausentes? disseminaram educação machista?
sabiam de tudo, mas calavam pra não se incomodar?
qual o exemplo que era dado por estes pais?

é em casa que as mudanças tem de começar a acontecer, um mundo melhor depende de pais e mães responsáveis, mas o cara culpa o Brasil?!

ah claro, é que agora ele está radicado em Londres...

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