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Mercantilização não!!!

Submitted by t on Qui, 31/05/2007 - 10:18.

Não é de hoje que as agências de publicidade utilizam as mulheres como "garotas propaganda" para venderem os mais variados produtos .De carros de luxo a confeito, as agências usam e abusam das mulheres para chamar a atenção para suas campanhas publicitárias.Incomodados com essa "mercantilização"o Movimento Nacional dos Direitos Humanos / Mov. Negro e Conselho Regional de Psicologia, resolveram iniciar no estado uma campanha pela valorização dos direitos da mulher e contra as cervejarias que promovem campanhas ofensivas
Para tirar algumas dúvidas a respeito dessa importante campanha, convidamos a Sra. Begoña Ibarra representante do FMPE (Fórum das Mulheres de Pernambuco).

Ventilador Cultural: Quais os Direitos Humanos das Mulheres que as propagandas das cervejarias estão violando?

Begoña Ibarra: Pensamos que as propagandas de cerveja têm violado os direitos da mulher ao estimular a mercantilização da sua imagem. O que seria essa mercantilização? Entendemos como mercantilização, acima de tudo, a desumanização da mulher e esse é um crime sério contra os direitos humanos. A desumanização ocorre no momento em que a mulher é mostrada como se fosse uma coisa, como se ela fosse parte integrante do produto à venda, ou o próprio produto à venda, uma vez que no caso das cervejas há uma tentativa de unificar o objeto à venda, a cerveja, e a mulher. Essa tentativa está inclusive documentada no CONAR [Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária] exatamente como cito a seguir, onde a Cervejaria Kaiser afirma utilizar um inovador “conceito criativo – o de unificar cerveja e mulher, como se uma fosse outra”. Os publicitários se utilizam de recursos psicológicos para tentar criar no inconsciente da audiência e no imaginário cultural que no ato de compra do produto – a cerveja - a pessoa estaria adquirindo junto uma mulher, ou ainda mais, que ao adquirir a cerveja este esteja adquirindo a própria mulher.
Para ilustrar essa análise temos vários exemplos, mas, cito aqui alguns mais contundentes, como o da Nova Schin: “Troque sem dó. Ex-cerveja não pede pensão”, da Skol: “A cerveja é minha mulher, traga minha mulher porque tenho saudades dela (...)”, da Antarctica “Eliseu, essas são as duas coisas mais importantes que você precisa aprender nesse verão. Olha só. Isso aqui é uma mulher nova e isso é uma nova lata de Antártica. Elas estão intrinsecamente ligadas.(...)”.
Gostaria de levantar uma diferença entre a estratégia acima e as propagandas que utilizam estratégia sexista, como as de detergente líquido e sabão em pó, que sempre retratam a mulher executando a atividade de lavar roupas ou louças. Embora estas também sejam bastante prejudiciais por reforçarem estereótipos, como o de que as tarefas domésticas são e devem ser sempre executadas por mulheres, elas não podem ser comparadas, em gravidade, à estratégia utilizada nas campanhas das cervejas onde a mulher é coisificada, desumanizada.

Ventilador Cultural: O que precisa ser feito para que as mulheres comecem a identificar que seus direitos estão sendo desrespeitados?

Begoña Ibarra: Este aqui já é um espaço interessante para começar a trabalhar a conscientização das mulheres em relação ao tema. Pensamos que falar a respeito disto no maior número de espaços possíveis também pode contribuir para que chegue ao conhecimento das mulheres que essas estratégias publicitárias são crimes contra a sociedade, e que as mulheres são o alvo principal. Porem, acreditamos que devemos ter em mente que mesmo se muitas mulheres não sentem que seus direitos estão sendo desrespeitados ou até mesmo que estejam dispostas a que a sua imagem seja utilizada de modo desumanizado, isso não exime as grande empresas da responsabilidade quando estas promovem situações de desrespeito aos direitos da mulher, como por exemplo, oferecendo oportunidades de trabalho, através da sua publicidade, onde são produzidas imagens desumanizantes.

Ventilador Cultural: Que tipos de danos esse tipo de propaganda pode provocar na sociedade?

Begoña Ibarra: Considerando, o que os próprios publicitários admitem, que “a publicidade exerce forte influência de ordem cultural sobre as grandes massas da população”, estou aqui citando trecho encontrado no site do CONAR, entendemos que as conseqüências são gravíssimas. Pensemos juntos e juntas sobre quais podem ser as conseqüências de lançar na sociedade imagens que destituem das mulheres qualquer indicativo de que estas possuem vontade, opinião, ou poder de escolha porque estas são sempre retratadas como coisa, ou seja, como algo que não diz nem sim, nem não, apenas aceita ser comprada. Acreditamos fortemente que valores assim contribuem diretamente para a violência contra as mulheres, sem falar de que reforçam imagens de masculinidade que também trazem prejuízos aos homens.
Outro fator extremamente preocupante é que as imagens criadas por essas campanhas elaboradas por profissionais renomados não são feitas de modo inocente como comprova a consciência que os publicitários têm sobre o alcance das suas campanhas sobre a sociedade como um todo. Isso significa que estes têm total conhecimento que a cultura de um povo é influenciada pelas imagens, frases e idéias que eles criam e, mesmo assim, estes não tem o cuidado de elaborar conteúdo positivo, desconsiderando o quanto crianças e jovens hoje estão expostos à mídia e o quanto estes se estruturam a partir das imagens veiculadas nos meios de massa, ou seja, parece que estão deliberadamente ignorando os direitos dessas pessoas em formação assim como tem feito em relação com os direitos das mulheres.

Ventilador Cultural: Como as pessoas podem contribuir com a campanha e pela valorização dos seus direitos?

Begoña Ibarra: As pessoas podem ligar para os números de atendimento ao público das Cervejarias (através dos números de telefone 0800 que podem ser encontrados nas próprias cervejas), fazer denúncia ao Ministério Público [(81) 2125-7300] e também entrar em contato com a sociedade civil através do número da campanha Quem financia a Baixaria é contra a Democracia [0800 619 619] para denunciar também, sempre que observarem que uma propaganda está se utilizando da imagem da mulher como se ela fosse um objeto.
Outra coisa que podem fazer é levantar a questão na sua casa, com seus/suas amigos/as, na igreja, no clube, na associação do bairro, na escola e trocar idéia a respeito, assim como procurar informações sobre o que existe na lei sobre garantia de direitos. Também buscar outras informações sobre mídia, ética e outros assuntos que possam ajudar a que cada um construa sua própria reflexão.

Ventilador Cultural: Algumas pessoas duvidam que esse tipo de propaganda seja abolida. O que você diria para elas?

Begoña Ibarra: Digo que estas pessoas estão corretas se pensam que realmente nada garante que essas propagandas serão abolidas, mas que isso não faça com que estas fiquem passivas diante da realidade. Assim como qualquer valor compartilhado por uma cultura, há uma disputa pelo espaço e pela importância que cada um tem para o coletivo, logo a expressão da insatisfação em relação a esta estratégia publicitária, pressionando o governo e as empresas para que isso tenha um fim, com certeza será uma boa contribuição para que estas não mais sejam veiculadas. E este é o caminho democrático, logo convido a todas e a todos que manifestem seus sentimentos e pensamentos sobre o tema.

fonte: http://br.geocities.com/ventiladorcultural/mercantilizacao.html
http://ventiladorcultural.blogspot.com/
Por Anderson Lucena

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