-espaço-tempo-vestimenta para repensar gênero e tecnologia
Resumo
O ponto de vista tradicional de gênero enxerga de forma binária homens e mulheres, classificando-os como opostos complementares. Entretanto, na cibersociedade a identidade virtual move-se em um novo ambiente. De corpos e suas construções subjetivas e físicas. Mas a prática de colocar-se na direção daquele que sofre o preconceito, ajuda na reprodução ou eliminação dos nossos papéis determinados socialmente, resultando em uma maior ou menor igualdade de gênero(s)?
Gênero no Cibespaço
Já sabemos que as tecnologias não são agentes transparentes que removem a questão de gênero de nossas vistas, e sim, ao contrário, ploriferariam a produção e organização de corpos ge(ne)rados nos espaços reais e virtuais, misturando-os imperceptivelmente às máquinas físicas (como lentes de contato, implantes) e muitas vezes a um conhecimento experienciado, mediado, do Outro. Pois qual o sentido de falar em skype se não puder reencontrá-l@ de fato? Ainda que o ciberespaço muitas vezes reflita as perpetuações cartesianas do mundo offline, sua imagem surge destorcida, ou invertida como um espelho, em que as identidades formam-se sob influência desse outro ambiente, moldado muito mais pelo intelecto e pelo corpo virtual/software do que pela matéria/hardware.
Neste sentido, trans-gênero ou ciborgue, os limites entre social/natural e biologia/tecnologia seriam generosamente permeáveis. A teoria queer (2) de certa forma já explicou este tipo de comportamento, que poderia até ser caracterizado como histérico, pois afirma que as pessoas estão contrariando a concepção (lógica/binária) de ser mulher, ou ser homem. Para Butler o gênero deveria ser visto como “uma variável fluída que se desloca e se modifica em diferentes contextos e em diferentes épocas”.
A teoria queer potencializa-se no ciberespaço enquanto ambiente criado de forma virtual, uma vez que pode-se construir uma identidade totalmente deslocada do corpo físico. Assim, partindo da perspectiva que o gênero pode modificar-se, sua relação com o preconceito se torna bem mais complexa do que se encarado com algo binário. A construção desta identidade que não é fixa no ciberespaço coloca o corpo material em xeque, pois quem dá as cartas é a mente e o físico ele pode ser substituído tanto pelo corpo virtual quanto pela imaginação. Se me descrevo como um homem alto, bonito e sensual e sustento este discurso com atitudes, comentários e um comportamento de um rapaz assim, quem dirá que sou mulher?
Enquanto as possibilidades de transgressão corporal na vida real apresentam-se diretamente relacionadas com o corpo físico, como travestir-se de mulher no carnaval, ou até mesmo operações de troca de sexo, quando se trata do corpo virtual entramos em outro âmbito. Pois não existe mais um "conheça seu corpo", mas "invente seu corpo". E o que acontece com a identidade de gênero nesse "mais corpo"?
Sendo assim, é interessante notar como o preconceito chega a ser invertido no ciberespaço, afinal de contas, por trás de um teclado as pessoas afirmam muitas coisas que não afirmariam olhando de frente o/a agredido/a. Muitas vezes o/a agressor/a veste a carapuça do agredido/a, como homens que se passam por mulheres em salas de bate papo, lésbicas que se tornam homens, ou machões que se revelam bichas. Tal prática de se (re)colocar no posição da/o outra/o, muitas vezes sujeito desprezado, demonstra como as novas tecnologias distorcem o comportamento.
Levando em consideração que a produção tecnológica hoje em dia é quase exclusivamente feita para o mercado, com inúmeras insituições de fomento à profissionalização da técnica, e estando os meios de comunicação tradicionais presos à lógica de dominação e controle do estado e seus parceiros e discursos hegemônicos, sobra aos espaços democráticos da internet e ao experimentalismo criativo característico do software livre, (que lida com questões tão diversas quanto à reciclagem e a autonomia tecnológica, a propriedade intelectual não-individualizada e não-comercial e até mesmo ativismo político), o livre estudo e desenvolvimento das técnicas capazes de revelar as possíveis e questionadoras relações entre gênero e tecnologia. Estas devem ser levadas para o campo da cultura e da arte, assim como da informação, da ciência e da técnica, pois todos são partes integrantes dos novos campos de batalha cognitiva.
Este novo "uso tecnológico", que pode conter em si uma forma de ativismo de gênero, como o ciberfeminismo, que nada mais é do que a re-apropriação cultural da tecnologia sob esta perspectiva, não orientado pelas demandas do capitalismo pós-moderno e sua produção em massa e linear, ou simplesmente pelo consumo. São as tecnologias de re:conhecimento, poetizadas e/ou concretizadas através de seu uso cotidiano, desde o conhecimento sobre a manutenção de computadores, a história resgatada das mulheres tecno-cientistas, assim como os encontros e estudos em grupo online (4), que incluem também o conhecimento do próprio corpo, assim como do novo corpo, o corpo digital (5).
Alteridade, fexibilidade, novos espaços de trabalho e lazer, técnica livre, uso crítico. Neste sentido, penetrar a tela envolve um estado que vai do físico, espaço biológico de espectador para o simbólico, o metafórico "consenso alucinatório" do ciberespaço - um espaço que é locus de intenso desejo for um encorpamento refigurado. Norbert Weiner em 50(3) apresenta-nos a cibernética afirma o feedback como chave para a fuga da entropia. O conhecimento do passado e a possibilidade de aplicá-lo de volta ao presente, em um aprendizado contínuo, torna o processo (ação) conteúdo (aprendizado). (TORNA O QUE? - > EXPLICAR MELHOR) Exatamente como fazemos nas comunidades online, quando deixamos de ser consumidores de mídia e nos tornamos produtores, onde nosso corpo é corpo-mídia (4).
A pergunta de Stone e que circunscrevemos aqui é se os futuros habitantes do ciberespaço continuarão a construir o desejo através da geração de corpos e gênero em termos binários ou acharão possibilidades mais interessantes de diferença sem se guiar por relações de dominação e submissão?
Pelos depoimentos de participantes de comunidades online, o preconceito persiste (5). Dentre os casos mais recentes está o depoimento em forma de texto de Annalee Newitz, que retrata o sexismo dos usuários do site Slashdot, que surge através dos comentários sobre seus artigos, que sempre parecem dar mais importância às suas características físicas do que a seu pensamento. No entanto, por meio dos mesmos comentários de outras mulheres puderam questionar tal atitude dos homens, gerando um debate mais profundo acerca do comportamento patriarcal. Outro caso é o do "hate-site" às LinuxChix, uma comunidade de mulheres há cinco anos online, que também gerou uma rápida mobilização contra o preconceito evidenciado e registrado. Isso se dá, sobretudo pela interatividade do meio digital, diferente de outros meios como o rádio e a tv, pois se parte do princípio de que se posso ler tal manifesto, posso também através do mesmo meio desconstruí-lo.
Outro exemplo é a ação de Cornelia Solfrank que em um concurso de net.arte, cria um programa que coleta informações de mulheres e fotos na internet e constrói uma página única. Seu trabalho para a exibição foi o de mandar, sem avisar aos curadores, a inscrição de 289 mulheres para o concurso. Na tela de entrada de seu site: Uma artista inteligente deixa com que a máquina faça o trabalho! [“A clever artist makes the machine do the work!”]) às mulheres do Woman on Waves, que realizam abortos em alto-mar para fugirem às leis que criminalizam a livre escolha (mas que estimulam as tecnologias da escolha inevitável, como a inseminação artificial), ao trabalho de linguagem inclusiva do CMI-Mulheres que revela o discurso da dominação.
Assim como pelo conhecimento sobre a manutenção de computadores, abrir a caixa-preta por pura curiosidade, e ali resgatar a história das mulheres tecno-cientistas, como Ada Lovelace, a primeira programadora. Assim desejo torna-se movimento através de fronteiras que antes pareciam imóveis. “Meu corpo: a máquina”, diz Haraway.
E entramos no ciberespaço pela porta do experimentalismo criativo característico do software livre - que lida com questões tão diversas quanto à reciclagem e a autonomia tecnológica, do hardware e da programação, da propriedade intelectual não-individualizada e não-comercial e até mesmo do ativismo político? Ou pela profissionalização que permeia a linguagem do software proprietário, já que no mundo do teletrabalho a casa torna-se o local mais disputado? Levando em consideração as inúmeras instituições de fomento à profissionalização da técnica, vemos que muito da produção cultural e simbólica ainda encontra-se amarrada à idéia de mercado, assim como os meios de comunicação tradicionais, presos à lógica de dominação e controle do estado, com seus parceiros e discursos hegemônicos, sobra aos espaços multi-vocais da Internet o ato de inseminar, ou segundo os filósofos, contagiar estes questionamentos por campos diversos: da cultura e da arte, quando são consideradas questões ciberfeministas, enquanto linguagem produzindo informação crítica, na ciência não se orientando pelas demandas do capitalismo e seu modo e tempo de produção cada vez mais acelerado, seu incansável consumo, e finalmente tendo a técnica como parte integrante-cognitiva, com a qual funde-se.
São as tecnologias de re:conhecimento.
Conclusão
Referências
(precisam ser organizadas)
VErsão I
(1) http://www.midiatatica.org/wakka/wakka.php?wakka=GenEro∞∞;
(2)http://www.molodiez.org/net/real_body2.html∞∞;
(3) http://www.alternet.org/story/34819/∞∞; 2 e http://br-linux.org/linux/node/3317∞∞;
Projetos que procuram justamente dar visibilidade ao preconceito no mundo do trabalho são PSL-Mulheres e LinuxChix.
(4) g2g: grupo de estudos em gênero e tecnologia em g2g-AT-lists.riseup.net
(5) O aprendizado do próprio corpo é tema do PS-Mulheres, de um coletivo oriundo do Centro de mídia Independente, que em suas oficinas relacionam peças de computadores com partes do corpo.
(6) http://www.theory.org.uk/ctr-butl.htm∞∞; - Judith Butler - Gender Trouble (não Gênero)
Vesão II
(1)http://www.molodiez.org/net/real_body2.html∞∞;
(2) http://www.theory.org.uk/ctr-butl.htm∞∞∞; - Judith Butler - Gender Trouble (não Gênero)
(3) Cibernética e Sociedade
(4) Helena Katz
(5) http://www.alternet.org/story/34819/∞∞∞; 2 e http://br-linux.org/linux/node/3317∞∞∞;
Projetos que procuram justamente dar visibilidade ao preconceito no mundo do trabalho são PSL-Mulheres e LinuxChix.
(6) g2g: grupo de estudos em gênero e tecnologia em g2g-AT-lists.riseup.net
(7) O aprendizado do próprio corpo é tema do PS-Mulheres, de um coletivo oriundo do Centro de mídia Independente, que em suas oficinas relacionam peças de computadores com partes do corpo.