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O fenômeno do funk feminino e feminista

Submitted by t on Qui, 03/05/2007 - 14:28.

“E aí, irmão?! Sou jovem, sou quente, sou sexy e sou uma cachorra. Algum problema?” É assim que vejo o fenômeno do funk feminino em curso no Rio de Janeiro.

Agora, antes mesmo que entremos na lógica que fundamenta meu raciocínio, temos que admitir que o funk em geral carrega um estigma. Quando comecei a trabalhar nesta pesquisa, em meados de 2001, o funk brasileiro ainda era bastante obscuro. Embora Hermano Vianna já escrevesse sobre o assunto no final dos anos 80, e apesar do fato de os bailes funk realizados nas favelas do Rio e periferia já atraírem mais de um milhão de jovens nos fins de semana, o gênero ainda era invisível para grande parte da classe média residente na Zona Sul da cidade. Mas estava prestes a ser descoberto.

[[]] Pense em um filme. Quando você é o diretor, você escolhe o tamanho da tomada e seleciona o que quer que seja incluído. Mas, mesmo quando está filmando, você não está sempre no controle. Às vezes a sombra de um microfone irrompe no quadro ou um transeunte te pega desavisado, invadindo a cena. Apesar de toda sua invisibilidade, imagens não planejadas de funkeiros também acabaram vindo à tona. Em 1992-1993, os chamados “arrastões” tomaram de assalto as praias da Zona Sul do Rio de Janeiro. Não era a garota de Ipanema, “mais linda, mais cheia de graça”, que balançava suavemente nas telas de nossas televisões, mas homens jovens e beligerantes que varreram as areias brancas do Arpoador brigando, roubando e aterrorizando as classes média e alta do Rio de Janeiro. Fomos informados de que eram as “galeras” dos bailes funk. No mesmo ano de 1993, imagens dos massacres de jovens na Candelária e em Vigário Geral, no Rio, chocaram todo o mundo. Essas cenas nos perseguiriam – e ainda nos atordoam. Como diz MV Bill, “quando o sangue do morro derrama no asfalto, aí é que todo mundo começa a se preocupar”.

Em novembro de 1999, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro criou uma CPI para determinar as causas da violência nos bailes funk e criar medidas para contê-la. O funk como gênero musical entrou em foco e, em seus depoimentos, algumas pessoas fizeram considerações estéticas, atribuindo um poder praticamente diabólico ao próprio ritmo e aludindo à sua capacidade de estimular a violência e o sexo desenfreados – acusações similares brotaram com o advento da valsa, do maxixe, do samba e, mais recentemente, do rock. O funk aparece em âmbito nacional pela primeira vez já estigmatizado. Como DJ Marlboro define, “o funk é a música mais ‘preconceituada’ e menos preconceituosa”.

O segundo choque para as sensibilidades da classe média veio à tona com as letras de funk tidas como “degradantes”, que se referiam às mulheres como “cachorras”, “potrancas”, “popozudas”, “preparadas”, “ordinárias” (lembranças de Nelson Rodrigues). A antropóloga Alba Zaluar sentenciou: “o funk provoca uma separação brutal entre os sexos e acentua a hipertrofia da sexualidade como forma de afirmação masculina”. O gênero aparece cada vez mais estigmatizado devido às suas letras, suas coreografias – enfim, sua linguagem.

Para quem já está rangendo os dentes e se lamuriando com a atrocidade com que as mulheres são tratadas nas letras funk ou rap, devo dizer que também concordo. Sou uma feminista de Segunda Onda, servi [[]] ao Conselho pelos Direitos da Mulher do Estado do Rio de Janeiro e fui uma das fundadoras do extinto Coletivo para Mulheres de Cinema e Vídeo. Fiz ativa campanha pela igualdade de direitos, de salários e de oportunidades – Deus castigasse quem nos tachasse de objeto sexual. Se tivesse nascido mais cedo, estaria na linha de frente junto às suffragettes, exigindo que às mulheres fosse permitido votar. Lendo esta última frase, dá para ver como a linguagem infiltra e subverte nossos pensamentos. Deixe-me revê-la: estaria na linha de frente junto às suffraggetes, exigindo que as mulheres tivessem o direito de votar. Veja como é necessário ter cuidado com a linguagem...

A lingüista e analista lacaniana Luce Irigaray tornou-se um dos primeiros expoentes da filosofia feminista quando lançou o livro Speculum of the other Women (1974), em que procurava identificar e desenvolver uma escrita especificamente feminina ("écriture feminine") capaz de subverter um imaginário masculino que condena as mulheres ao silêncio. Irigaray formulou ainda uma crítica radical às instituições da cultura, linguagem e psicanálise, considerando comprometidos seus gestos supostamente igualitários.

No Brasil dos anos 70, também estavam em estudo questões de associações de gênero baseadas na linguagem. A sociolingüista Eliane Vasconcellos Leitão cita, no livro A mulher na língua do povo, o verbete do Novo dicionário da Língua Portuguesa (de Aurélio Buarque de Hollanda) para a palavra “homem”: "qualquer indivíduo pertencente à espécie animal que apresenta maior grau de complexidade na escala evolutiva; o ser humano; a espécie humana, a humanidade; ser humano, com sua dualidade de corpo e espírito; ser humano do sexo masculino". “Homem” também aparece como parte das seguintes expressões: "homem da rua – homem do povo; homem de bem – indivíduo honesto; homem de ação – indivíduo enérgico; homem de Deus – homem santo, piedoso; homem de letras – intelectual, literato; homem do povo – indivíduo considerado como representativo dos interesses e opiniões do homem comum; homem público – indivíduo que se consagra à vida publica". A “mulher” é definida como: "1 – pessoa do sexo feminino, após a puberdade; 2 – esposa”. E aparece ainda nas expressões: “mulher à-toa – meretriz; mulher-da-rua – meretriz; mulher-da-vida – meretriz; mulher pública – meretriz; mulher perdida – meretriz; mulher de César – mulher de reputação inatacável". Ou seja, uma mulher, tal qual concebida pelo senso coletivo refletido por um dicionário, só é digna se pertencer a alguém. Sem comentários. Aparentemente, as mulheres não eram incluídas na humanidade (ou na espécie humana) e nem consta qualquer referência à sua posição na escala evolucionária. O último verbete parece indicar que poderia haver salvação para as que conseguissem algum tipo de estatura, se casadas com um homem. Ou talvez se usassem saltos de uns doze centímetros... Embora ainda existam pessoas que não entendem o porquê do movimento feminista, a maior parte das mulheres consegue enxergar que, tanto no nível social quanto no político, havia muitas coisas a serem questionadas.

Numa referência a Hegel, Kate Millet define “política” como “relacionamentos arquitetados no poder, arranjos através dos quais um grupo de pessoas é controlado por outro”. Por motivos próprios, defini “política” como sendo a negociação e a administração do poder, o status público, a identidade e a participação, e comecei a batalhar por respostas para algumas questões: como é que mulheres de segmentos menos privilegiados da sociedade brasileira (muitas vezes mães solteiras ou arrimos de família) conseguem participar deste processo contínuo de negociação, para o qual necessitam visibilidade e voz? E o que a cultura do funk revela sobre essas mulheres?

Por mais chocante que possam parecer estes retratos de mulheres traçados por homens do rap e do funk, o que se pode dizer das letras interpretadas – e por vezes até escritas – pelas próprias mulheres? Estaremos assistindo a uma reação violenta a tais movimentos pelos direitos femininos? Poderíamos ver nesta nova “linguagem”, nesta nova “performance”, mais uma difamação da mulher, uma recusa a nossa liberdade recentemente adquirida? E quem são estas intérpretes que revelam a si próprias como sincera e escandalosamente irreverentes? O que é [[]] negociado através de suas discussões francas sobre sexo, prostituição, desejo, raça, amantes e (in)fidelidade, que aparecem em suas letras?

Certamente, as mulheres que fazem rap e funk fogem aos modelos projetados por figuras como Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Alcione. Em que momento o sexual torna-se também político? O que aconteceu com o feminismo? Onde ele se encaixa?

A palavra “feminismo” envelheceu; adquiriu significados diversos. Para alguns, ela é referente a um ódio generalizado a homens. Outros equacionam feminista ao rótulo homofóbico de “lésbica”. Mulheres mais jovens incorporam os ganhos dos movimentos feministas dos anos 60 e 70 como sendo já dados e esquecem – ou ignoram – as mudanças radicais alcançadas pelas militantes da época. Mas o feminismo continua de pé. Embora quase todas as intérpretes de rap e de funk se mostrem resistentes à palavra, Deise Tigrona afirmou: “Se dizer o que você quer implica ser uma feminista, então eu sou”.

As feministas da Segunda Onda gritaram: “nossos corpos nos pertencem”. Deise, por sua vez, refez a conexão na letra em que declara: “a b**a é minha, o bebê é meu”. Luciana Rezende, do grupo As Anfetaminas, ponderou: “Não é pelo fato de ser mulher que sou obrigada a ser feminista. Mas se é para valorizar isso, então eu sou.” Nega Gizza declarou numa entrevista: “Não faço parte de um grupo feminino. Faço parte de um grupo de rap. Até entendo esse conceito, mas não concordo”. No entanto, Nega Gizza escreveu a seguinte dedicatória no encarte que acompanha seu CD Na humildade: “Se liga, vou oferecer meu sonho a todas as prostitutas desse país e a todas as mulheres em geral, que a cada dia têm que provar que são mulheres de verdade”. Até a rapper Queen Latifah admitiu que sentia dificuldade em se identificar com “grupos de mulheres brancas gritando na televisão” e, embora suas letras contenham um viés feminista, ela prefere se autodefinir como “womanist”.

Se a Segunda Onda feminista se unia numa irmandade predominantemente branca, primeiro-mundista, alfabetizada e heterosexual, lutando em prol da igualdade e contra o estigma de “objetos sexuais”, a Terceira Onda prioriza um franco reconhecimento da diferença e a celebração da sexualidade.

As representantes da Segunda Onda – que chamaram nossa atenção para os estereótipos sexuais aos quais as mulheres eram frequentemente relegadas - lamentam hoje que o neofeminismo conceda foco a questões pessoais e culturais em detrimento das políticas. Mas as atuantes da Terceira Onda, que com freqüência é tachada pejorativamente de “lipstick” ou “girlie” com seu “foco-fora-de-foco”, parecem apontar para uma luta intergeracional. Como a terceiro-ondista Amy Richards esclarece, “o que as pessoas não entendem é que falar de sexo e auto-estima sexual é falar de igualdade” – uma fronteira que as feministas de Segunda Onda não ousam explorar, limitando suas discussões ao sexo violento ou invasivo.

Mulheres mais jovens, ao assumirem sua sexualidade – de maneira até exagerada, às vezes -, não estão pedindo para serem objetificadas, mas estão avançando, afirmando o direito à sua própria feminilidade. Ao se referir ao uso das palavras “girl”, “bitch”, “slut” e “cunt” nos Estados Unidos, Richards formula um questionamento sobre quem está no controle desses termos. “Durante muito tempo essas palavras foram usadas contra as mulheres. Agora, seu uso é uma tentativa de reclamá-las para si”, diz ela, notando que tais termos parecem muito menos hostis quando usados por elas próprias. [[]]

Ao utilizar termos pejorativos como bandeiras triunfais e gloriosas, as jovens de hoje invertem preconceitos, levando certa perplexidade a um mundo dominado por pensamentos corporativistas e conservadores. Com certeza os diretores da GE, multinacional que comprou a linha de fornos e fogões da Dako e conseqüentemente processou Tati Quebra-Barraco (Tatiana dos Santos Lourenço, na foto ao lado) pela menção “indevida” da marca em uma letra de funk (“Dako é bom!”) ainda não enxergam que as mulheres que “pilotam” os fogões de hoje em dia não são as mesmas de antes (e que refrão genial para um comercial não teria sido esse...). Diga-se de passagem, Tati foi a primeira a usar o termo “cachorra” numa música – fato que até hoje gera polêmica. Em “Barraco III”, ela dizia: “Me chama de cachorra, que eu faço au-au / Me chama de gatinha, que eu faço miau”.

Peter Fry fala sobre os conceitos de “ativo” e “passivo” aplicados no universo hierárquico do homossexualismo. Neste jogo dicotômico, o “passivo” sempre foi considerado o mais fraco – se referia à mulher, ao dominado, ao submisso. Ao implementar o conceito de “ativo” nas suas vidas sexuais, políticas e sociais, as mulheres invertem o jogo. O caleidoscópio das idéias dá, assim, uma nova girada, dispondo suas peças num novo formato. Existe algo de assustador na idéia de uma jovem mulher ser ativa sexual, política e economicamente? No diálogo em que sedutor/sedutora trocam de lugar com rapidez, qual é o mais importante? Como disse Deise Tigrona, “Não é só um corpinho bonito / Tem que ter muita cuca no lance / Eu, Deise Tigrona / Sou muito interessante / Vocês querem mudar o meu jeito / É meu modo de falar”.

Ao contestar os falocêntricos sistemas epistemológicos /ontológicos no campo da linguagem, nos quais se formam as legitimações e exclusões, essas jovens trazem à tona os privilégios de sexo, classe e raça, antes escondidos ou confundidos. As vozes das mulheres do rap e do funk colocam em xeque as reificações de gênero e de identidade. A música encontra eco na sociedade, nas mulheres para as quais se apresentam como críticos problemas referentes ao acesso a sistemas de saúde pública, direitos de reprodução, criação de filhos, imagem de seu próprio corpo, educação, emprego, violência, doenças sexualmente transmissíveis.

No Brasil, 50% da população são representados por mulheres. Trinta e seis milhões delas são negras, o que corresponde a 23% da população total, 44% da população feminina, 27% da população rural e 22% da população urbana. A mulher negra ganha 55% menos do que as mulheres não-negras e 60% das famílias chefiadas por negras têm uma renda mensal de menos de R$ 150. Você não vai ouvir as divas do funk no rádio, mas você pode alugar uma cópia do documentário Sou feia mas estou na moda, de Denise Garcia, em uma locadora perto de sua casa. Essas mulheres são quentes. Você tem algum problema com isso?

*Atriz, compositora, cantora, escritora, pesquisadora do Núcleo de Estudos Musicais do Centro de Estudos em Ciências Sociais Aplicadas (CESAP). E mãe.

http://www.jornalmusical.com.br/textoDetalhe.asp?iidtexto=1209&iqdesecao...
25/04/2007 Kate Lyra*/ Especial para o Jornal Musical

Posted in Submitted by t on Qui, 03/05/2007 - 14:28.