-espaço-tempo-vestimenta para repensar gênero e tecnologia
Ao chegar em um grande shopping da região da Pampulha deparo-me com a seguinte cena: duas crianças pequenas, meninos, um negro e outro branco, maltrapilhos e sujos, sendo acompanhados por um segurança em direção à saída.
Já vi isso acontecer de outras vezes e sempre voltava chateada para casa pensando por que eu me omitira? Por que eu, uma professora e conhecedora dos direitos fundamentais, que acredito exercer a cidadania, não reagira em favor de pessoas, sujeitos de direitos, que passavam por situações de opressão e humilhação? Decidi perguntar ao segurança que os escoltava o que estava acontecendo.
Ele confirmou o óbvio: os meninos foram convidados a se retirar porque, segundo ele, haviam “aprontado”. Perguntei o que haviam aprontado. Ele: “ah, eles estavam bagunçando no shopping!”. Em menos de 2 minutos já estávamos cercados por mais duas seguranças. Insisti: Mas que tipo de bagunça? Houve alguma reclamação contra eles? Uma das seguranças resolveu intervir e revelou de uma forma até inocente: “olhe para eles! Estão sujos e mal vestidos. Não podem andar pelos corredores dessa forma!”. Naquele momento a situação estava resolvida para mim. Chamei os garotos e nos assentamos. Pedi que o responsável pela segurança do shopping se apresentasse. Eu esperava que ele fosse mais esperto que ela e me arrumasse um sem número de desculpas, que desfizesse o mal entendido justificando que não seria esse o motivo, que sua funcionária não estava preparada para responder por tal equivoco, que as crianças não seriam impedidas de permanecer no shopping, etc. Ledo engano.
Logo foi chamado o chefe da segurança que referendou a atitude de sua equipe, e pior!, sugeriu-me que caso eu quisesse poderia me responsabilizar pelos garotos e passear ou fazer compras com eles no shopping. Ainda perplexa perguntei: “Vocês têm alguma ocorrência, algum registro de qualquer atitude ilegal dessas crianças no shopping? Porque o que está acontecendo aqui é crime. Preconceito, discriminação e exposição de crianças a situação vexatória.” Ele: “Ah! Eles poderiam incomodar algum cliente ou até fazer coisa pior”. Mais uma vez: “Essas crianças cometeram algum crime a não ser estarem aqui sujos e mal vestidos? A não ser serem pobres?” “Não.”
Chamei a polícia e registrei ocorrência. Quando os meninos entenderam que a polícia fora chamada começaram a chorar. Até então não faziam a menor idéia de que não eram eles que estavam errados. Que a polícia, naquela ocasião, seria chamada para garantir-lhes um direito. Direito que eles mesmos desconhecem. Coloco-me na situação dessas crianças, tentando imaginar quantos olhares de desaprovação, de suspeita, elas recebem ao entrarem num shopping. Quanta coragem é necessária para resistir a essa violência silenciosa e, ainda sim, como todas as outras crianças, meus alunos, seus filhos, qualquer uma enfim, ir passear no shopping. “Passeio” esse sem direito a lanche ou compras, apenas para olhar e ser olhado. Vale ressaltar que o shopping, na pessoa de seu representante, o chefe da segurança, não nos apresentou nenhuma queixa de clientes ou de logistas, nenhum registro de qualquer atitude indevida daqueles meninos que pudesse justificar tal atitude. O crime ali fora tão somente serem crianças pobres...
Jeanne Mary Vieira Chequer
34 anos, professora.
26/10/2006